Thursday, June 11, 2009

Valendo cinqüenta reais

Eu quero a moça me esperando na janela
Quero o cravo na lapela
Quero um terno riscado e um chapéu de palha

Eu quero uma conversa de alto nível
Para testar o linguajar difícil
Que eu aprendi em meia década de brasa

Eu quero muito tempo e pouco horário
O real e o imaginário
Quero o fim e o que não acaba

Eu quero pouco
Quero o tudo e muito mais
Valendo cinqüenta reais

Tuesday, June 02, 2009

Instantânea (IV)

Acordou atrasado, como sempre
Fumou um cigarro de café da manhã
Tomou uma cachaça de almoço
Bebeu cicuta de lanche da tarde
Serviu-se de amor antes de dormir

Thursday, May 28, 2009

Instantânea (III)

Você devia ter saído
Depois daquilo que falou
Mas você não saiu
E você não aguentou

Era muito difícil de se aguentar
Você se virou
Sua mente saiu dali
Mas seu corpo ali ficou

Chamaram-te a atenção
Olharam-te com atenção
E você se repartiu
Nunca mais saiu dali

Saturday, May 23, 2009

Instantânea (II)

O meu amor não permite desconfio
Não permite desafio
Não permite ilusão

O meu amor, sei que é um perigo
Mas te digo, meu amigo
Não ando na contramão

O meu amor, sei, pode ser infinito
Mas se tocam o apito
Logo perco a razão

Wednesday, May 20, 2009

Instantânea

Eu promulguei minha Constituição
Eu legislei meu coração
Eu abafei a emoção
Então dei voz à razão
E olha que situação
Agora que me encontro são
Não mais consigo fazer rima

Friday, April 24, 2009

Cronos

Ele quando era criança pensava como adolescente
Quando adolescente pensava como adulto
Quando adulto não pensou muito adiante dele a partir de então

Aquele quando era criança sabia o que era adolescência
Quando adolescente sabia o que era maturidade
Quando maduro sabia que nada sabia afinal de contas

Esse quando era criança foi só isso
Quando adolescente foi só isso
Ficou adulto e têm sido isso desde então

Ela foi só mulher durante tudo
Pra ela o tempo foi só algo a mais
A mulher é mesmo algo atemporal

Saturday, April 18, 2009

Superficial

Apego-me demais ao essencial
Que me esqueço do superficial
Esqueço-me até que nada existe
Sem a superficialidade

Sem superfície não há contato
Não há sentido como o tato
Não há atrito, não há combustão
Sem a superficialidade

Sem superfície nada atrai
Se nada atrai, nada repele
O que seria do corpo sem a pele?
Sem a superficialidade?

Wednesday, March 25, 2009

Vozarada

Vozes, vozerios, vozeirões.
Os gritos, como navalha,
cortam o ar,
cortam a mente,
cortam o pensamento.

Vozes, vozerios, vozeirões.
Vozes a todo instante,
a todo momento.

Gritos de socorro,
pedidos de desculpas,
lamentos, xingamentos,
a todo instante,
a todo momento.

Conselhos que não foram requisitados.
Ordens que não deveriam ter sido expedidas.
Mandamentos, mandamentos, a todo o momento.

A palavra é a pedra que se atirou ao lago,
é o fósforo queimado, é a flecha lançada.

Um barulho frenético se instalou por sobre
a cidade. E o murmúrio da amante ao ouvido
do amado ecoa até o céu. Éu, éu, éu...
É tudo éu.

Vozes, vozerios, vozeirões.
A língua é a espada com que o homem
moderno digladia com seus inimigos.
Um fogo cruzado se instala, e eu,
que nada tenho com isso, saio de vítima.

Ah! Que lugar bom o mundo seria
se as pessoas apenas falassem do
que soubessem.O que me mata não
é o tempo, são os pitacos impróprios.

Monday, March 23, 2009

Voltas e reviravoltas

A poesia se converge nesse estupor imaginativo quando se torna apenas aquilo que os homens almejam: nada que um mero ideal, apenas a faixa de chegada ao fim da maratona. Torna-se fútil, e assim perde sua graça. Torna-se escassa como se tornam seus poetas. Seu corolário é, enfim, definhar e desaparecer, assim como aqueles que a criam.

O poeta, o verdadeiro poeta, se desvanece, e a poesia fica submergida em um sempre inerte lodaçal. Mas não morre. Ela nunca morre. Seja por sua própria leveza de ser, seja por sua própria mutabilidade, ela se consagra como única. E nada, por mais importante que possa parecer, conseguirá destruí-la. Torna-se uma rainha sem coroa, deposta de seu trono por seus próprios súditos, mas ainda uma rainha.

A poesia nem sempre é valente, nem mesmo quando trata de estórias heróicas. A poesia é mãe bondosa e gentil que prefere escapar com vida e prosperar em terras distantes a arriscar-se perecer, e extinguir, assim, um patrimônio acumulado por toda a história.

Os poetas, seus filhos, muitas vezes morrem na frente de batalha em sua defesa. Outros se aventuram por terras alheias, e desses, apenas poucos – tais quais filhos pródigos – retornam ao seio do lar maternal. Muitas vezes chegam à busca de consolo de mãe, como se, enfim, aceitassem a idéia de que a beleza que buscavam em terras longínquas não estava onde pensavam estar, mas sim, sempre debaixo de seus narizes. Outros, por fim, perdem-se para sempre nas muitas voltas e reviravoltas do mundo.

Ainda que se percam todos os poetas, a poesia haverá de sobreviver. Seja por sua própria leveza de ser, seja por sua própria mutabilidade, ela, sempre consagrada como única, consagrar-se-á, novamente, como primeira.

A poesia reiniciará uma era de transformações e mudanças. E enfim, todos, dos mais tristes aos mais alegres, dos menores aos maiores, dos ricos aos pobres, dos desafortunados aos afortunados irão novamente sê-la súditos fiéis. Todos poderão conclamar seus bens e seus males a quem quiser ouvi-los. O mundo será mais aberto.

Aprenderemos a viver em consonância com tudo o que nos cerca, pois não se faz poesia sem saber onde se está. E o homem aprenderá a viver em harmonia com o meio ambiente, sem degradá-lo e sem se impor normas e regulamentos burocráticos e carentes de eficiência. Homem e animal se reconhecerão e os bardos cantarão as estórias de sua reconciliação. O capital conviverá com o social.

A tirania não mais reinará impune. E a poesia administrará tudo com a imparcialidade daquele que, cotidianamente, enxerga além do cotidiano. Os poetas sairão às ruas de braços abertos, de olhos abertos, de peito aberto, e com o coração leve, prontos para mostrarem, a quem desejar ver, toda a sabedoria que há nas curvas da arte que a humanidade criou. Os poetas são os filósofos da realidade, assim como os filósofos são os poetas do abstrato. E isso voltará a ser evidente.

Os zeros e uns se transformarão em cores, e as pessoas não mais se sentirão obrigadas a ler. Elas viverão, pois é da vida que brota a arte, e é da arte que brota o conhecimento. E é do conhecimento que brota o futuro.

O eu e o outro se unirão ao girar de um círculo perfeito. Pois que a vida, fonte de nossas angústias e de nossos mais íntimos sentimentos de plenitude, é cíclica, e toda ida tem seu retorno. O que hoje está por cima, um dia, no futuro, estará embaixo, e isso dá a certeza de saber que sempre haverá um recomeço. Assim como a fruta que cai serve de adubo para a própria árvore, um lodaçal servirá de base para a construção do palácio de nossa majestade. Do pântano brotará a poesia, tal qual uma vitória régia.

Wednesday, March 18, 2009

Num canto qualquer

No palco, um francês qualquer, provavelmente vindo de qualquer lugar menos da França, cantava uma música triste, lenta, amarga de se ouvir, e ainda assim, ao mesmo tempo tão íntima e cativante.

Perto do palco, sozinha em uma mesa, estava uma mulher, de pernas cruzadas e com uma cigarrilha entre os dedos, a ouvir a chorosa melodia que o francês cantava. Sua coluna estava ereta e sua postura era impecável, tal qual a postura de uma verdadeira dama deve ser. Soltava a fumaça em suaves baforadas, de forma tão singela que a fumaça parecia bailar ao ar.

Um homem sentou-se em uma mesa ao lado daquela mulher. Observou seu rosto e viu que ela olhava tristemente para o chão, como se todo o salão à sua volta fosse indiferente a seu sofrer.

A moça usava um vestido justo reluzente, de cetim ou de outro material qualquer. O tecido passeava com delicadeza por suas curvas, e a abertura na altura do joelho deixava entrever uma parte da perna esquerda que daquele ângulo, deixava aparecer uma parte da coxa também.

Quem a teria largado ali?, jogada como uma guimba de cigarro pela janela de um carro. Ou talvez, quem a teria deixado esperando por todo esse tempo? Quem a disse palavras apaixonantes ao ouvido e a fez acreditar em um futuro que nunca aconteceria?

A música parecia enternecer a mulher, e seu espírito parecia bailar ao som choroso da voz do cantor. Ela se completava em sua solidão, e sua tristeza parecia ser sua única e necessária companhia. Como se talvez não existisse espaço para ela no mundo que a cercava.

O homem se virou para o copo à sua frente e passou a observá-lo com olhos mortos. Sua mente já divagava em outro lugar, estava além daquele momento. Seus pensamentos transcendiam tudo o que havia de real e seu corolário era aquele ar de desconsolo que todos fazem quando finalmente entregam os pontos. Onde aquele homem estivera? Será que trabalhou a noite inteira, esperando por um momento de paz quando chegasse em casa, e tendo adentrado o lar terá encontrado apenas mais aborrecimentos? Ou talvez será apenas mais um desses bêbados quaisquer que vagam por aí.

O francês pediu uma pausa, e deixou a banda tocando, para puxar uma mulher para dançar. Todos os olhares se viraram para o casal no meio do salão. O bêbado continuou a olhar seu copo, mesmo quando o francês deu uma pirueta e em seguida distribuiu sorrisos, como se convidando as pessoas a também dançarem, mesmo assim o bêbado não virou o rosto. E mesmo assim, as pessoas ficaram nos seus lugares, e o francês voltou para o microfone.

Vendo o francês dançar com uma desconhecida, a mulher pensou naquele que seria o amor de sua vida, o único, o “ele e ninguém mais”. Alguém, a quem ela se dedicaria perdidamente. Alguém que a respeitasse, alguém que a adorasse, e fizesse dela a mulher mais desejada do mundo, melhor!, do universo. Mesmo que esse alguém fosse qualquer um.

E aquele cidadão ao lado, com cara de cansado, com cara de quem morreu e ainda não ficou sabendo, só queria alguém para lhe fazer uma massagem quando ele chegasse em casa. Se soubesse cozinhar e cuidar de um lar, tanto melhor, ele a respeitaria, adorá-la-ia, e a faria se sentir a mulher mais bem protegida do mundo, talvez do universo. Mesmo que ela não fosse um exemplo de simpatia, ainda que ela fosse qualquer uma.

Os dois continuaram ali, daquele jeito, por toda a noite. Quando o show acabou, o francês, que nem era da França, apenas olhou para os dois, daquele jeito que esses falsos franceses costumam olhar, e em seguida saiu reclamando que não existia mais romance no mundo, que as pessoas não se arriscavam, e que não dava para trabalhar daquele jeito...

Tuesday, March 17, 2009

Saudade

Saudade, sentimento estranho,
palavra sem sinônimo em qualquer
outro canto do mundo. Saudade,
tão solitária, quanto tua função.
É uma palavra sem amigos.

Saudade, cujo apanágio é o querer
de novo. Sentir saudade é querer
voltar no tempo. Toda saudade tem
um quê de ficção científica.

Saudade, sentimento único,
sentimento sem caminho, sem
ida nem volta. É olhar no espelho
sem se ver. É andar parado.

Não é tão simples quanto enxergar
o copo metade cheio, ou metade
vazio. A verdade, é que a saudade
não mata, mas também
não fortalece.

Saudade, sentimento de mão única,
que vigor trará? Se ao menos o tempo
voltasse... Ou se talvez, quem sabe,
o mundo girasse um pouquinho mais
devagar...

Mas a vida não é um carrossel,
e sentir saudade do que não se
pode reaver é amarrar uma âncora
aos pés e se lançar revoltoso ao
mar revolto.

As circunstâncias de nossas vidas,
às vezes nos forçam a colocar certas
pessoas nesse campo neutro,
sem ação, nem reação, em que
eventualmente todos são colocados.

Sentir saudade a essa hora da
madrugada é inútil. Querer pular
do décimo sexto andar, querer
sentir o vento cortando seu rosto
enquanto encara o chão vindo em
sua direção, também.

Vá dormir. Amanhã a gente se fala. – Disse ele.
Rodolfo, conversa comigo até eu pegar no sono? – Pediu ela com carinho – Depois você desliga.

Tuesday, February 17, 2009

Querendo demais

Tu queres tudo, olha tu que tudo quer
Queres o mundo encolhido em uma colher
E tu me dizes que não queres, não importa
E tua mentira é coisa que já não comporta

Tu queres muito, queres minha atenção
E isso é pouco, se te dou meu coração
Queres ficar, mas também queres ir embora
Queres partir, mas se deixa perder a hora

Queres surpresa, queres tudo de presente
Queres agora, ou senão é indiferente
E tu me dizes que isso é coisa de mulher
Mas, ó querida, tu não sabes o que quer

Queres tudo separado, mas queres nossas almas juntas
Queres tu minhas respostas, mas não me dá tuas perguntas

Monday, February 09, 2009

Transformando chumbo em ouro

Você é humano quando erra
Nobre quando se desculpa
Digno quando se arrepende sinceramente
Inteligente quando aprende
Esperto quando evita novos erros
Sábio quando passa adiante.
Torna-te, enfim, honrado, quando não ignora o que aconteceu.

Thursday, January 29, 2009

O homem é uma estátua

O homem é uma estátua.
Não come, não anda, não fala.
Não cospe, não sofre, não chora.
Não pára, não corre, não sente.
O homem é uma estátua.

Não tem casa, carro ou apartamento.
Não tem livros, filmes ou lamentos.
Não tem amigos ou parentes, arrependimentos.
O homem é uma estátua.

Tem merda de pombo na cabeça,
Ferrugem nos ombros,
Mendigos aos pés.
O homem é uma estátua.

O homem é oco, é feito de chumbo.
Não tem sangue, tem liga de cobre.
Não tem coração, tem liga de prata.
Não tem sonhos, tem liga de ouro.
O homem é uma estátua.

Não bebe, não fuma, não fode.
Não pensa, não vive, não morre.
O homem é uma estátua.

Saturday, December 27, 2008

Um brinde

Hoje vou fazer um brinde aos bravos. Aos heróis. Àqueles que trabalham o dia todo em um escritório. Àqueles a quem o telefone não dá sossego. Aos que ganham dinheiro suficiente para colocar a filha no balé, inglês e natação, mas não têm tempo de brincar com ela. Àqueles que acumularam fortuna suficiente para dirigir um carrão importado e o utilizam para ir do trabalho para a casa. Aos que têm uma esposa muito magra, com sete ou oito cirurgias plásticas, seis horas diárias de academia e mais duas de salão, e não tem tempo para dizer que se amam – ou mesmo para “se amarem”. Àqueles que têm milhares de empregados, centenas de “puxa-sacos” e nenhum amigo. Aos letrados, formados acadêmicos, que explicam coisas sobre o céu e o universo, e não conhecem o que é o amor. Àqueles que voam de helicóptero, mas não conhecem a sensação de caminhar pelo campo. Àqueles que cumprimentam inúmeras pessoas durante o dia, mas não conhecem o calor de um abraço sincero e apertado. Àqueles que mantém mega instituições de caridade, mas não conhecem o olhar e o sorriso de uma criança ao ver Papai Noel. Aos que possuem salas de cinema, mas nunca assistiram a um filme abraçadinhos em um dia de chuva comendo pipoca. Aos que comem caviar, mas nunca provaram uma boa galinha feita no fogão de lenha. Um brinde, meus amigos, a vocês. Porque talvez vocês não sejam tão ricos quanto pensam.

Thursday, December 18, 2008

Notícias

Moça, vem saber da novidade

Da noticia lá de fora

Que eu tenho pra contar.

Diz que não existe

Céu e Inferno

Que isso é coisa que inventaram

Apenas pra nos controlar!

Diz que se pode fazer de tudo

Comer carne gordurosa

Sem medo de engordar.

E diz que se você não é bonito

Assim mesmo não se queixe

Tem alguém pra te amar!

Diz ainda que o dinheiro nosso

É uma coisa suja imunda

E que não traz felicidade.

E que o amor é coisa que dura pra sempre

E que amar e ser amado

É questão de dignidade!

Olha, vou falar para você

Esse povo lá fora

É mesmo muito sabido.

Diz que a saudade é passageira

E que mais dia menos dia

Nosso grito é ouvido!

Monday, December 01, 2008

Manifesto à péssima safra

Não basta ter beleza,
...Tem que ser atraente.
Não basta ter atitude,
...Tem que ser coerente.
Não basta ter realeza,
...Tem que ser nobre.

Não basta ter coragem,
...Tem que ser ousada.
Não basta ter inocência,
...Tem que ser culpada.
Não basta ter vertigem,
...Tem que ser delírio.

Não basta ter cultura,
...Tem que ser sábia.
Não basta ter papo,
...Tem que ser lábia.
Não basta ter formosura,
...Tem que ser glamour.

Não basta ter interesse,
...Tem que ser vontade.
Não basta ter vontade,
...Tem que ser desejo.
Não basta ter desejo,
...Tem que ser intenso.

Não basta ter completude,
...Tem que ser perfeita.
Não basta ter,
...Tem que ser.
E não basta ser mulher,
...Tem que ser deusa.

Para que eu possa amá-la em toda sua divindade.

Monday, November 17, 2008

A loirinha

Da varanda eu vi uma loirinha bonitinha e para ela assobiei.
Ela se virou para mim e eu a encarei.

Ela voltou seu rosto e continuou a subir.
Saindo das sombras seus cabelos a reluzir.

Postou-os à frente do peito e se foi arrumando-os.
Será que pensava em mim, ou em outro amor qualquer?

Provavelmente em outro amor qualquer.
Mas pergunto-me se ela passará por essa praça novamente.

Friday, November 07, 2008

Love

Ainda me lembro bem daquela tarde
Terras distantes, povo estranho
e eu "arranhando" um ingles pra te conquistar

"I love You!"


e, não me esqueço, nunca
de tê-la ouvido responder
e acho que foi isso mesmo

"I love you, too!"

e aquelas semanas foram mesmo inesquecíveis
tão inesquecível quanto tua partida
quando eu, correndo, gritava

"why? you told me ..."

E você, com aqueles olhinhos verdes
virou-se, calmamente,
e disse, baixinho

"I was only joking, kid... "

Tuesday, November 04, 2008

crepúsculo solitário

Hoje estive a me lembrar

Nos nossos momentos vividos

Uns alegres, outros sofridos

E quase me pus a chorar

Sinto ainda o teu cheiro

E o gosto do teu veneno

Sinto teu corpo moreno

Sob o brilho do cadeeiro

O teu cabelo preto, comprido

Tua pele clara, o olhinho brilhante

Tem o brilho do sol, de um diamante

Com gosto de amor esquecido

E o teu sorriso, inigualável

Mais belo que o pôr-do-sol

Pois não existe, mesmo, um arrebol

Que me seja tão adorável

Lembro-me do abraço apertado

E das tristes despedidas

Das horas contadas, sofridas

Do coração açoitado

Teu colo, tão aconchegante!

Teu lábio doce feito mel

Sinto na boca o gosto infiel

Do venenoso beijo de amante

Vamos fugir, diz a canção!

Por um dia ou uma hora

Venhas ser minha senhora

Pois moras no meu coração.

Friday, October 31, 2008

Menos ainda

I

São quatro livros de lado
E um dicionário,
Que ainda parece um pesadelo

Dois livros abertos
Dois livros fechados

É tanta coisa
É tão pouco tempo
Tanto tempo
E já deveria tudo estar aqui dentro

Ou não?
Ou ainda não?
Ou ainda nunca?


II

De grão em grão
Dá uma paradinha
Enche o papo da galinha

Compra um calendário
Essa sina de operário
Não lhe trás satisfação

De grão em grão
Ou encontra sozinha
Ou ainda solução


III

Ainda assim procurei
E procurei
E procurei
E procurei
E procurei
E procurei
E só então fui perceber
Que eu não sabia o que estava procurando

E então eu procurei
E procurei
E procurei
E procurei
E eu acho que achei
Só não sei o que achei
Isso eu sei
Mas eu achei, sim senhor


IV

É nesse desencontro
Nessa disparidade dos acontecimentos
Que eu vejo tudo, Tudo, TUDO
Só não vejo um jeito de fazer acontecer...

Wednesday, October 29, 2008

Fissura

Loucura de mato aqui é mato
Nêgo aborrecido aqui eu mato
Entre o eu e o tu há um fato
Há um temeroso rugir de quimera
E uma ensandecida corrida de carro

Há uma preguiça de ter preguiça
Há um vício feio que o ócio iça
Há uma disposição que enguiça
Muitas borboletas por essa primavera
E em meu peito fumaça de cigarro

Há uma entrega que ninguém me traz
Um cheiro doce de símbolo de paz
E um sorriso, que oculto, não sorri
Seria tudo mais fácil se estivesses tu aqui

Sunday, October 19, 2008

Samba mineiro

Vou beijar a sua boca
Pra você calar a boca
Olha só que coisa louca
Hoje eu vou te namorar

Vou sentir a sua pele
Olha só que quente pele
Essa noite, a noite é nossa
Samba quente, nova bossa

E eu estou longe do Rio
Mas eu rio, eu rio
E um poema das Gerais
Sempre me faz querer mais

Sem você eu passo mal
Meu amor da capital
Só assim me sinto bem
Meu amor do interior
Vem que é certo nosso amor

Friday, September 26, 2008

Assim por dizer

Esfrega os olhos que não enxergam coisa outra além da realidade.
Esmurra a boca que te beija por não saber o que falar.
Confessa que teu primórdio é o secundário de outrem.
Por que há essa coisa entre nós que somente nós conseguimos entender, mas que vista assim de fora fica meio difícil de saber o que é.
Meu único compromisso é com o descaso, e não se sinta diferente pela minha indiferença.
Esse meu jeito despreocupado de levar as coisas já irritou todo mundo, inclusive eu mesmo.
Deve ser uma péssima conseqüência desse meu péssimo hábito de não estar nos lugares para onde olho.
Há quem se despeça e continue, e há quem vá embora sem dar tchau.
Há muito para se dizer além do que já foi dito.
Eu só espero conseguir um beijo doce antes do final.

Tuesday, August 19, 2008

Destino: Inevitável

Querido Aroldo Marzagão,


Não sei se expresso primeiro a felicidade de ter novamente contato contigo ou a tristeza com a notícia que trouxera.

Adianto-te, amigo, que não há no mundo alguém que conheça o remédio para a saudade. A não ser, é claro, um reencontro.

A propósito, não sabes em que boa hora, meu bom amigo, chegou a tua carta. Pois não é que estava eu justamente tentando um meio de comunicar contigo, pois as cartas que te enviei retornaram? Lógico, mudaste do Rio e eu não sabia. Aliás, muito astuto da tua parte teres enviado a tua carta à minha mãe. Ela é, talvez, a única pessoa do mundo que sempre sabe onde estou. Ela me enviou tua carta e um bilhetinho escrito assim: "formiga quando quer se perder cria asa, e eu acho melhor você voltar pro formigueiro".

Aproveito a oportunidade para contar-te um pouco do que tem acontecido por aqui nestes – longos – oito anos. A vida não tem sido fácil. Desde que parti, a teu contragosto, tenho vagado de lugar em lugar, tentando, em vão, melhor sorte. Posso agora imaginar-te dizendo: "o nosso destino é mesmo inevitável".

E por falar em destino, tu não acreditas quem eu encontrei em uma cadeia no interior do Mato Grosso. Lembras do Matias, aquele sujeitinho magrelo com quem fizemos sociedade num puteiro lá em Serra Novana, e que no final das contas tentou explodir o lugar porque se apaixonara por uma das quengas? Pois não é que estávamos os dois presos na mesma cela? Firmamos uma parceria e, utilizando seus conhecimentos em explosivos, fugimos daquele lixo. Desde então temos andado juntos. Eu já o perdoei pelo lance do bordel. Sabe como é, um homem apaixonado não deve ser julgado como os outros. Nós bem sabemos disso...

O Matias e eu temos tido sucesso em uns golpes aí, nada muito grande, mas é exatamente aí que tu entras. Quando eu te disse da boa hora em que chegou tua carta, é porque temos planejado um novo trabalho. Coisa grande, que é prudente não dizer por carta, mas, com os militares fora do poder a coisa vai “afrouxar” um pouco. Acho que, com a “velha guarda” novamente reunida, teremos sucesso.

Estamos de saída para tua cidade. Já é hora de voltar pro formigueiro. Esperamos nos encontrar contigo em breve. Enquanto isso, vê se consegues convencer o Gilson, o Aristeu e o Cândido a se juntarem a nós. Acredito que o Aristeu vai dar-te trabalho, mas sei que, se alguém é capaz de convencê-lo, esse alguém é tu.

Quanto a ti, não pergunto se estás dentro, pois já sei a resposta.


Um grande abraço,


Artur Bernardo.


Guaporé, 02 de Novembro de 1988.


p.s.. Mando uma grana que nós tínhamos guardado para uma ocasião de emergência. Creio que será suficiente para pagar a fiança do Armano. Vamos precisar dele.

p.s.2. Continuo acreditando, meu caro amigo, ao contrário de ti, que o único destino inevitável é a morte, e pretendo provar-te isso...

Wednesday, August 13, 2008

Para você

Dou-te uma carta
E não um beijo
Por estar aqui - ainda longe
E minha perna ainda não cicatrizou.

Estes foram tempos difíceis
Tenho vivido quase morto
Arrastando-me de um lugar a outro
Com minha faca entre os dentes...

A morte anda a espreita
E eu não posso vacilar
Preciso tirar de mim
Aquilo que me faz sofrer.


Vou lutando com a saudade
E estancando um sangramento
Já sepultei todos os meus amigos
Mas a luta não termina


Mas eu não esqueci
E peço que não esqueças
Logo logo estarei contigo – novamente
Pra te amar como mereces...

Thursday, June 05, 2008

Alboroamento

Já dizia o grilo cancioneiro:
Tudo em vida é passageiro,
Tudo em vida é ilusão.
Muita voz, pouca canção.

Muito carro, pouca estrada.
Muita curva, pouca aresta.
Grilo! Tu disseste que esta
Rua já estava acabada,

Mas vejo tijolo e vejo cimento.
Eu vejo loucura e vejo lamento.
Percebo que falta sinalização.

Tome cuidado! Pois o perigo,
Eu te digo, meu amigo,
É andar na contra-mão.

Monday, May 12, 2008

Destino: Inevitável

O Bando dos Cinqüenta e Um Ladrões . Prólogo


Querido amigo,

Já faz tempo que não nos vemos. Desde aquele dia, em que de mala e cuia saístes à procura de um destino. Quanta determinação... Quanta ignorância. Ainda hoje tu sabes que fui contra essa idéia. Quanta tolice!

Mas é bom saber que nossa amizade, há muito, já ultrapassou os degraus da desconfiança, e posso lhe falar, com tanto zelo e tanta intimidade, sem receio de retaliações.

Todavia, tu já sabes, e não sem razão que não teria outro motivo pra te importunar se não fosse algo importante. E vejas tu que a notícia não é boa.

Olha meu amigo, que crueldade fizeram com o Armano. Botaram o Armano na prisão. E o que o Armano fez? Olha, meu amigo, que crueldade fizeram com a gente. Eles sacanearam o Armano. E o Armano nem mereceu.

Tudo bem que o lugar era feio e pouco funcional. Mas era aconchegante. Pelo menos é o que a placa dizia. E a gente nunca teve do que reclamar, não é? Também a gente se familiariza facilmente com as coisas. E enquanto a cerveja estivesse gelada, a carne estivesse saborosa, e o papo estivesse bom... Não haveria mesmo do que reclamar.

Fosse eu, fosse tu, fosse o Cândido, o Gilson, ou o Aristeu... Tudo bem... Desses, nenhum nunca prestou. Mas o Armano? O Armano é sacanagem!

O Armano, ainda é difícil de acreditar... Porque a gente pegava cerveja, direto do congelador. E a gente anotava nossa própria bebida. E nunca pra menos. Sempre o certo. Porque o certo é o que todos devem fazer. E a gente entrava na cozinha como se fosse a nossa casa... E agora botaram o Armano na prisão.

Nunca mais haverá outra meditação como aquela. Outro relaxamento. Outra companhia. E as meninas... E a lua... E a carne com mandioca... E aquele banco de cimento, ali no canto escuro, onde os amantes trocavam juras de amor. Nunca haverá outro banco igual. Desconfortável e coberto apenas por um carpete preto. Desconfortável que só vendo. Mas a gente dormiria ali, tranquilamente, se fosse preciso.

Diferente do Aristeu, que reformou o Chevette 76 que tinha. O Aristeu voltar pra cadeia, eu compreendo. De certa forma, acho que o Aristeu nunca foi realmente livre. Aquele sempre andou algemado. Mas agora ele está aí, com o Chevette 76 reformado.

E dizem as más línguas que arranjou uma cama macia de se deitar. Mas acho que é mentira desse povo, ainda outro dia eu o vi saindo do doutor reclamando de dores nas costas. Logo o Aristeu, que se deitava em qualquer canto que o coubesse. Logo o Aristeu, que dos malandros só perdia pra mim... E pro cavalo marinho, que de tão malandro que é, já nasce debaixo d’água pra não puxar carroça. O que uma loira não faz, hein!

O Aristeu tá bem de vida. Só tem vivido muito e sofrido menos. E eu te digo, amigo. A gente tem que sofrer de vez em quando. Mas, agora sem Armano, vai ser ruim encontrar outro lugar para chorar as mágoas.

E, por falar em coisa ruim... Aquela delegada da Zona Sul andou enfiando o nariz além da conta, e pegou o Cândido de jeito. A mal-amada juntou uns civil, numa dessas que o Cândido tava de porre, e desceram o couro no nosso amigo. Quebraram até o barraco do coitado. Até o barraco, acredita? O barraco é sacanagem...

Mas o Cândido, também é cândido só no nome. Tu te lembras daquele golpe que a gente deu no museu? Levamos uma grana boa, pra época. Ele perdeu a cabeça e quando a polícia parou a gente, mal conseguia manter o disfarce. Cândido e sua MG-14. Se o Aristeu não acalma ele, que coisa ia ser...

Fiquei sabendo que ele saiu em condicional, e agora vaga por aí, solitário pelo mundo. Ainda outro dia eu vi o Cândido andando pr’um lado e pro outro, sem sair do lugar. Parece até um mendigo.

Vai-se o barraco, vai-se o Armano. E os duendes...? E o centro da terra...? E o conhaque? O conhaque se enobreceu, virou whisky e eu o misturei com energético. Pro Aristeu o conhaque deve ter virado Campari, ou pinga, ou uma outra coisa qualquer. Pro Cândido, eu sei, o conhaque nunca fez muita diferença. Nem pra ele, nem pro Gilson. E esse eu te digo. Ainda está no xadrez. Parece que tentou fugir e só piorou a situação.

O Gilson, depois que perdeu o rumo tem feito isso mesmo. Pulado de cadeia em cadeia. Fazendo uns trabalhinhos aqui e acolá. Mas sem nenhum golpe grande em vista. E sem possibilidade. O Gilson, tempos atrás arrumou um problema, que te direi amigo!, nem sei se consigo explicar. Agora espera a sentença. Pode pegar perpétua ou coisa pior... Ou coisa pior...

Coitado..., bom que vai servir de companhia pro Armano... Mas e agora, sem o Armano? O que eu vou fazer quando passar por aquela rua asfaltada? Tu só pegou o final, a parte boa e bonita, toda deslizada. Na minha época, aquilo tudo era calçamento, energia elétrica tinha. O caminho de pedras que levava pro Armano, que armava tudo, mas nunca armou confusão...

Pois é, bom amigo, prenderam o Armano. E sabe o que a mulher dele fez? Ligou pro Brutus. O Brutus cobrou uma grana preta dela, passou a perna nela, e só piorou a situação. E agora, me diga se você acredita nisso? Bem que a velha deveria ter desconfiado hein!

O Brutus sempre foi um tipo inconveniente. Ainda em outra feita me apeteceu de chamar o Balão pr’um canto, pr’eu resolver uma situação com ele. Tu te lembras do Balão? Aquele tipo meio eqüino? Pois, o próprio. E acreditas tu que o Balão me sacaneou? Me deixou na soleira, sozinho. Quase que a polícia me pega. Depois eu vi ele dando moral pro Brutus. E o Brutus naquela cara de pau...

Que vergonha, passar a senhora do Armano pra trás... Eu até que tentei ajudar a velha... Passei o contato da Malvina pra ela, e a coitada da Malvina se esforçou. Mas tu conheces a Malvina, né? Ela até que tenta, mas vale nada, pobrezinha. Acaba mais atrapalhando que ajudando.

Nesse meio tempo eu até quis ajudar o Armano, mas me contaram que tinha saído um mandado de prisão pra mim. Tive que ficar na moita por um bom tempo. Nesse ínterim, agilizei um hapeas corpus preventivo com a Malvina, e até mandei uns cigarros pro Armano. Um pacote de Marlboro vermelho e um disco dos Demônios da Garoa. Que presentão, hein...

Acreditas que o safado vendeu o disco e fumou os cigarros? O Armano é um tipo estranho mesmo...

Tu te lembras daquela vez que a gente fugiu da polícia, porcausa daquele golpe que a gente deu na virada do ano, e fomos parar perto de Corinto? O Adamastor deu o golpe com a gente, e nós três tivemos que ficar uns dias na cidade até a poeira abaixar. Tu te lembras que o Adamastor deu o cano na gente e sumiu, não é...

Pois outro dia eu vi o safado, e vou te dizer. Tá bem de vida, viu? Mudou completamente... É outro. Ninguém nem mesmo reconhece. Deu o cano e se deu bem... A gente ficou pra ajudar o Armano por causa de um disco dos Demônios da Garoa. Eu mando o disco pro safado... E o safado me vende o disco pra comprar mais cigarro. É mole?

Mas, enfim... Agora o Armano está preso. E o que eu vou fazer com todo aquele conhaque guardado? O Jibóia tava querendo roubar. Deu uma indireta pra nós dois racharmos o estoque no meio e passarmos a perna no Armano. Nêgo é foda. Não pode ver um pote descoberto que já vai metendo a mão, achando que é dono.

Agora... Tu pode até me xingar, mas eu tô vendendo as coisas do Armano pra ajudar a mulher dele a bancar advogado. Na maior boa vontade, te juro. Até chamei o Cláudio pra ajudar. O Cláudio, inocente que só ele, fechou um negócio mal fechado, e um cidadão aí passou a perna no Cláudio. E cretino sabia que a grana era pra ajudar o Armano. O pior nem é passar a perna, porque nêgo bobo tem mais é que cair. Mas passar a perna no Armano é sacanagem.

Nós dois, nós sabemos que nunca prestamos. A cela seria nosso destino inevitável... Mas a gente taí... E o Armano tá lá, e vou te dizer... Pegaram o Armano de jeito, armaram pro coitado do Armano, e não sei se ele escapa dessa vez...

E assim, como ficam as noites estreladas? As auroras de róseos dedos? O cheiro doce das margaridas pela manhã? Os malandros, um a um, vão caindo. Depois que passei aquele tempo no Carandiru, acabei perdendo contato com o resto do bando. Dos irmãos metralha, só mantenho contato com o Balão mesmo. Os outros, fiquei sabendo que morreram numa dessas vezes que a polícia subiu o morro.

Depois que o golpe de Tihuana deu errado, o Mexirica andou sumido um pouco, mas já deu as caras novamente. Só que é outro. Diz ele que se legalizou... Ainda bem, se não fosse ele me tirar do Carandiru, ainda iria estar lá... Quanto aos outros, faço pouca idéia do que aconteceu desde aquele dia... Parece que o Felisberto ficou um tempo escondido no meio do mato.

E olha só que loucura. O Felisberto entrou num esquema pra faturar uma grana trazendo ilegalidade da Bolívia. O Felisberto, todo caipira daquele jeito, foi mexer com peixe grande. No primeiro balanço, caiu todo mundo pra cima do coitado do Felisberto. Teve que ficar um tempo no meio do mato até arranjar um jeito de voltar pro Brasil.

Nessa confusão, acabei arranjando um cafofo pra ele em São Paulo, aproveitei a paisagem e resolvi ficar por aqui. O Rio continua lindo... Mas ficou perigoso até pra mim. De resto, pouco mudou. O colesterol deu uma aumentada. A calvície está cada vez mais evidente... A memória é que já anda falhando, mas comprei um remédio da Dona Sebastiana, e não tô preocupado com isso. O remédio é tão bom, que acredite, o coração anda palpitando igual o de pintinho saindo do ovo. Ainda balança um pouco quando eu vou pro’s lados da Gamboa, mas vida continua...

Lá já se vão oito anos desde que tu foi embora. E agora o Armano foi preso. E tu que sempre foi tão inteligente, me responda. O que eu faço com essa saudade?


Com afeto,



Aroldo Marzagão.


Serra Negra, 5 de outubro de 1988.




ps.. Mando com a carta um pacote de Marlboro vermelho e um um litro de Jack Daniel’s. O disco do Demônios da Garoa, eu sei que tu ainda o tens.

Wednesday, May 07, 2008

Saudade

Saudade escreveu um bilhete
Bateu na sua porta
Chamou por você
Gritou seu nome
Mais de uma vez


Saudade perdeu o caminho
Saudade me achou sozinho
Saudade escreveu um recado
De mim pra você


Saudade não te encontrou
Saudade, para mim voltou
Sentindo saudade
Esqueci de querer te esquecer


Quem sente saudade é louco
Quem pensa que amar é pouco
Não teve o prazer que eu tive
De te conhecer


Saudade bateu à minha porta
Meu peito a saudade corta
Sentindo saudade
Esqueci de esquecer você

Friday, April 04, 2008

Última (?) conversa...

- Túlio, seu safado! Por que você nunca mais me ligou?

- Bem... Este era o combinado, não era?

- Era... Mas você podia ter ligado, né!

- Oras! Não era o combinado?!?

- Ta vendo? Seu problema é esse! Sempre as regras, sempre metódico. Será que não dava pra quebrar as regras nem uma vez?

- É que eu pensei...

- Pensou nada! Você não pensou nada!

- Tá... Então eu não pensei nada.

- Viu? Será que você nunca vai conseguir impor a sua opinião? Meu Deus!... Agora diga, o que você pensou?

- Ah... É que eu pensei que você não queria que eu ligasse...

- Como “não queria”? É claro que queria!

- Então porque você não ligou?

- Ah! Agora a culpa é minha!

- Não, eu não disse isso.

- Disse sim, você disse.

- Mas não foi isso que eu...

- Tudo bem... Tudo bem... A culpa é minha mesmo!

- Não, eu não disse que....

- A culpa é sempre minha!

- Mas eu...

- Adeus!

- O quê?

- E não me ligue nunca mais!!

- Tá...